Rorschach como paródia da Justiça

Contém Spoilers de Watchmen

 

Watchmen, uma história em quadrinhos escrita por Alan Moore  e Dave Gibbons é provavelmente a história com mais metáforas e críticas ao mundo humano que já li.

A história conta sobre um grupo de “heróis“ durante a Guerra Fria, todos sem nenhum tipo de poder ou habilidade sobre-humana, parecido com o filme Kick-Ass, um grupo que se veste em uma fantasia e sai combatendo o crime. O único que realmente tem poder é o famoso Dr. Manhattan, os poderes dele o tornam no provavelmente mais poderoso super-herói dos quadrinhos, ele controla a matéria, incluindo os conceitos de mecânica quântica, isso o dá poderes divinos.

Um dos Heróis, e o que vou comentar aqui, é Rorschach, um homem que se veste de detetive e usa uma máscara branca com uma mancha negra, essa mancha vive em constante mudança , assim como as manchas do Teste de Rorschach, de onde vem o nome do protagonista (explicarei essa metáfora), Nascido Walter Kovacs, filho de uma prostituta que o agredia, isso o tornou violento e fez com que ainda jovem atacasse três jovens que faziam bullying com ele, um foi cegado pelo próprio cigarro e outro teve a orelha arrancada a dentada.

Um tempo depois Kovacs decide virar um vigilante (em inglês Watchmen) para combater o crime em Nova York. Porém um dia, enquanto investigava o desaparecimento de uma garotinha veio a descobrir que seu sequestrador havia a matado e dado de comer aos cachorros, nesse momento, como o próprio Kovacs conta mais a frente na história, Walter Kovacs morre e Rorschach que assume. A partir desse dia ele vira um assassino de bandidos.

Outro acontecimento que ocorre é a chamada Lei Keene, antes da história dos quadrinhos começar o “Vigilantismo”, ou seja, os heróis combatendo o crime, vem a desagradar a polícia pois eles estavam tomando seu “lugar”. Por isso os policiais entram em greve e com essa pressão o Governo americano aprova essa lei que proíbe o vigilantismo, após isso o único que permanece na ativa, embora ilegalmente, é Rosrchach.

Nos quadrinhos Rorschach começa a investigar a morte de outro vigilante, o Comediante, em sua jornada ele confronta diversos criminosos buscando por informações e acaba se deparando com uma investigação muito complexa e maior do que ele imaginava.

Mais a frente ele é traído, enquanto ia buscar informações com um dos ex-vilões ele descobre que caiu em uma armadilha e é cercado pela polícia, após uma briga ele finalmente é detido. Devo ressaltar aqui antes de continuar um detalhe bem interessante, quando ele é detido e os policiais retiram sua máscara ele grita “Devolvam o meu rosto!”, isso será importante mais a frente em meu texto.

Durante seu tempo no presídio ele passa por uma sessão com um psicólogo, nesse momento que é contado os momentos que descrevi acima, sua infância e o crime que “matou” Kovacs.

Pouco tempo após isso, durante o horário de refeição, em meio aos criminosos, muitos dos quais ele foi responsável pela prisão, um deles começa o ameaçar, Rorschach fica quieto, porém o detento decide atacá-lo  com uma faca, o nosso “herói” se defende, quebra o vidro que dividia a cozinha do refeitório, pega uma fritadeira onde estavam fritando batatas e arremessa o óleo quente em cima do detento, nesse momento ele grita outra frase marcante “Não sou eu que estou preso com vocês, vocês é que estão presos comigo”.

Rorschach é resgatado por dois de seus antigos companheiros, o Coruja e a Espectral e descobrem que o último integrante que pertencia ao grupo dos vigilantes, Ozymandias, é o responsável por trás de tudo.

Após uma batalha é revelado que Ozymandias causou a morte de milhares de pessoas para criar paz, unir as nações sobre um inimigo em comum e acabar com a Guerra Fria. Todos concordam em manter silêncio a respeito da verdade pois o plano, embora polêmico, deu certo e a paz foi criada, porém Rorschach recusa-se a manter-se calado, quer falar a verdade ao mundo mesmo que isso volte a causar conflitos, ele acaba sendo morto pelo Dr. Manhattan.

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Agora que apresentei a história comentarei sobre a grande metáfora que é Rorschach.

Rorschach é uma representação da justiça, ele busca manter a ordem e prender os que a violam, isso é mostrado em sua vestimenta, que lembra a de um detetive. Entretanto o que caracteriza o personagem e o que é indispensável pra ele, como vimos na cena onde ele grita “Devolvam o meu rosto”, é sua máscara, uma que sua mancha sempre muda de forma, cresce e diminui, sempre está em constante mudança. A máscara pode ser vista como uma representação do Direito, a lei, pois elas estão sempre em constante mudança, leis são criadas e modificadas. As leis são a face da justiça, assim como a máscara é o rosto de Rorschach.

Outro ponto que podemos citar, vendo suas origens, é ele foi resultado da violência, cresceu oprimido pela sua mãe e pelos demais membros da sociedade. A justiça foi criada para combater a anarquia, onde todos faziam o que bem entendessem e, visto que na obra o homem é Hobbesiano, ou seja, o homem nasce mau e por causa disso cria uma sociedade má também.  Kovacs sofreu dessa maldade da sociedade, a viu como ela é (na visão de Hobbes, “o homem é o lobo do homem”) e por isso decidiu criar o Rorschach, a justiça, entretanto sem leis a justiça julga como bem entender, por isso ele fez sua máscara, criou as leis que ele seguiria.

A lei se adapta a sociedade, ela deve manter a ordem, essa é sua função, portanto quando Rorschach se depara com o crime da garotinha ele percebe que a justiça, no caso ele, precisa ser mais rígido, para manter essa ordem. Nesse momento ele abandona seus ideais humanitários e adota uma postura firme, esse é o momento que seu lado “humano” morre, Kovacs desaparece, só Rorschach vive a partir dali.

Durante a cena da prisão que citei, ele fala a sua marcante frase e mostra aí um conflito, ele está no meio de um presídio, onde o crime e a desordem reinam, e ele está lá sozinho. Isso nos dá o seguinte questionamento, em meio a tanta desordem e maldade (sociedade anárquica) a justiça pode contê-los?

Nesse momento ele está sem sua máscara, aí a justiça não tem leis e age como bem entender, ele segue seus ideais de manter a ordem, mas não há algo para ditar suas ações, ele está sem rosto, em meio ao caos ele deve fazer o que for necessário para sobreviver na esperança de manter a ordem e manter assim a sociedade não anárquica, ou seja, a que respeita a ordem, seguem as leis definidas para conviver com ordem, segura. Isso que o leva a matar diversos criminosos durante a fuga da prisão, onde há uma rebelião dos detentos.

O último e principal ponto que é questionado é os limites da justiça e da ordem. Rorschach entra em um dilema no fim, Ozymandias (na minha visão uma paródia do Estado) parou as guerras e uniu a humanidade, entretanto para isso ele cometeu um crime, milhares de inocentes foram mortos, Rorschach decide combater ele, pois um crime foi cometido, a ordem foi quebrada, entretanto essa quebra da ordem foi necessária para um “bem maior” e por tentar seguir suas leis, seus ideais ele acaba sendo morto. Porém mostra que, após ser morto, fica sua mancha na neve com o “formato” de sua máscara, isso mostra que mesmo após leis serem extintas elas ainda acabam gerando efeito no futuro pois tiveram sua influência sobre a sociedade, podemos citar como exemplos as leis de escravidão que ajudaram a gerar o racismo atualmente e a Lei sálica, criada na idade média que gerou o patriarcado que, de certo modo, vive até hoje.

Qual o limite da justiça e da lei, ele buscou trazer a ordem ao denunciar o Ozymandias, entretanto como disse, a quebra da ordem foi necessária, até onde vai o limite da lei e da justiça? Compensa denunciar essa desordem (mortes) mesmo sabendo que ela foi necessária para criar ordem (paz mundial)? Nesse momento a justiça e as leis viraram um empecilho, pois na busca de criar ordem ela geraria desordem, criou-se esse paradoxo, entretanto a ação de Ozymandias foi o conhecido “mau necessário”, fez um crime (mau) para que no fim um obstáculo fosse superado e a humanidade voltasse a “crescer” (paz mundial), por isso Rorschach foi exterminado.

 

Ozymandias: Desordem (mortes) –> Ordem (Paz mundial)

Rorschach: Ordem (denunciar o crime) –> Desordem (Volta dos conflitos)

 

(Hobbes, Thomas. Leviatã. São Paulo: Martin Claret, 2017)

(Moore, Alan; Gibbons Dave. Watchmen: Edição Definitiva. São Paulo: Panini, 2017)

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