O Lobo solitário

 Um lobo solitário se vê perdido em um mundo hostil, o qual ele não conhecia completamente, via animais e insetos passearem pelas densas florestas onde as árvores cochichavam, os lagos cujas águas calmas escondiam uma peixes e mais peixes, montanhas as quais só se ouvia o assoviar dos ventos. O lobo, mesmo com todos os demais animais e insetos, se via sozinho, passara muito tempo isolado, quando outros lobos se aproximam ele não sabe mais como agir, o lobo é e não é mais um lobo, as vezes se perguntava como, uma espécie igual mas diferente, conseguiria se encaixar nesse mundo.

Com o tempo ele deixou de sentir medo, alegria, tristeza, apenas dois sentimentos o restaram; amor e ódio. Ele começou a entender como o mundo funcionava, o porquê de ser tão hostil, a essência dos seres vivos, entretanto sabia que, no fim, nada realmente sabia.

Deixou-se, por fim, a aceitar sua realidade, sua situação e assumiu o que se tornara. Comunicava-se com os lobos como um igual, mas no fundo sabia de suas diferenças, esse é o preço da solidão.

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Queda ao abismo interminável

Muitas vezes já me perguntaram “O que é depressão?”, nunca soube que resposta dar, falava que era uma tristeza que vinha sem motivo, mas isso não consegue, nem de longe, descrever o que é esse mal. Por isso escrevi esse texto, pesado, mas que descreve a depressão como eu a vejo.

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   A Tristeza o empurrava para o abismo, sentia a inacabável queda, via o poço sem fim tomado, não pela escuridão, mas pelo nada, total ausência. Aos poucos a tristeza o deixava, junto a ela ia a felicidade, os risos e as lágrimas, a falta de emoção, a falta de vida.

Uma hora apenas a existência sobrará, mantida pela chama cedida por prometeu, ele se transformará em uma casca vazia. Isso trará a Loucura, um demônio que deseja o devorar, sem armas e sem vida não há como combatê-la, não há como escapar de seus dentes e só há de aguardar o eterno descanso em seu horrendo e terrível estômago.

Rorschach como paródia da Justiça

Contém Spoilers de Watchmen

 

Watchmen, uma história em quadrinhos escrita por Alan Moore  e Dave Gibbons é provavelmente a história com mais metáforas e críticas ao mundo humano que já li.

A história conta sobre um grupo de “heróis“ durante a Guerra Fria, todos sem nenhum tipo de poder ou habilidade sobre-humana, parecido com o filme Kick-Ass, um grupo que se veste em uma fantasia e sai combatendo o crime. O único que realmente tem poder é o famoso Dr. Manhattan, os poderes dele o tornam no provavelmente mais poderoso super-herói dos quadrinhos, ele controla a matéria, incluindo os conceitos de mecânica quântica, isso o dá poderes divinos.

Um dos Heróis, e o que vou comentar aqui, é Rorschach, um homem que se veste de detetive e usa uma máscara branca com uma mancha negra, essa mancha vive em constante mudança , assim como as manchas do Teste de Rorschach, de onde vem o nome do protagonista (explicarei essa metáfora), Nascido Walter Kovacs, filho de uma prostituta que o agredia, isso o tornou violento e fez com que ainda jovem atacasse três jovens que faziam bullying com ele, um foi cegado pelo próprio cigarro e outro teve a orelha arrancada a dentada.

Um tempo depois Kovacs decide virar um vigilante (em inglês Watchmen) para combater o crime em Nova York. Porém um dia, enquanto investigava o desaparecimento de uma garotinha veio a descobrir que seu sequestrador havia a matado e dado de comer aos cachorros, nesse momento, como o próprio Kovacs conta mais a frente na história, Walter Kovacs morre e Rorschach que assume. A partir desse dia ele vira um assassino de bandidos.

Outro acontecimento que ocorre é a chamada Lei Keene, antes da história dos quadrinhos começar o “Vigilantismo”, ou seja, os heróis combatendo o crime, vem a desagradar a polícia pois eles estavam tomando seu “lugar”. Por isso os policiais entram em greve e com essa pressão o Governo americano aprova essa lei que proíbe o vigilantismo, após isso o único que permanece na ativa, embora ilegalmente, é Rosrchach.

Nos quadrinhos Rorschach começa a investigar a morte de outro vigilante, o Comediante, em sua jornada ele confronta diversos criminosos buscando por informações e acaba se deparando com uma investigação muito complexa e maior do que ele imaginava.

Mais a frente ele é traído, enquanto ia buscar informações com um dos ex-vilões ele descobre que caiu em uma armadilha e é cercado pela polícia, após uma briga ele finalmente é detido. Devo ressaltar aqui antes de continuar um detalhe bem interessante, quando ele é detido e os policiais retiram sua máscara ele grita “Devolvam o meu rosto!”, isso será importante mais a frente em meu texto.

Durante seu tempo no presídio ele passa por uma sessão com um psicólogo, nesse momento que é contado os momentos que descrevi acima, sua infância e o crime que “matou” Kovacs.

Pouco tempo após isso, durante o horário de refeição, em meio aos criminosos, muitos dos quais ele foi responsável pela prisão, um deles começa o ameaçar, Rorschach fica quieto, porém o detento decide atacá-lo  com uma faca, o nosso “herói” se defende, quebra o vidro que dividia a cozinha do refeitório, pega uma fritadeira onde estavam fritando batatas e arremessa o óleo quente em cima do detento, nesse momento ele grita outra frase marcante “Não sou eu que estou preso com vocês, vocês é que estão presos comigo”.

Rorschach é resgatado por dois de seus antigos companheiros, o Coruja e a Espectral e descobrem que o último integrante que pertencia ao grupo dos vigilantes, Ozymandias, é o responsável por trás de tudo.

Após uma batalha é revelado que Ozymandias causou a morte de milhares de pessoas para criar paz, unir as nações sobre um inimigo em comum e acabar com a Guerra Fria. Todos concordam em manter silêncio a respeito da verdade pois o plano, embora polêmico, deu certo e a paz foi criada, porém Rorschach recusa-se a manter-se calado, quer falar a verdade ao mundo mesmo que isso volte a causar conflitos, ele acaba sendo morto pelo Dr. Manhattan.

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Agora que apresentei a história comentarei sobre a grande metáfora que é Rorschach.

Rorschach é uma representação da justiça, ele busca manter a ordem e prender os que a violam, isso é mostrado em sua vestimenta, que lembra a de um detetive. Entretanto o que caracteriza o personagem e o que é indispensável pra ele, como vimos na cena onde ele grita “Devolvam o meu rosto”, é sua máscara, uma que sua mancha sempre muda de forma, cresce e diminui, sempre está em constante mudança. A máscara pode ser vista como uma representação do Direito, a lei, pois elas estão sempre em constante mudança, leis são criadas e modificadas. As leis são a face da justiça, assim como a máscara é o rosto de Rorschach.

Outro ponto que podemos citar, vendo suas origens, é ele foi resultado da violência, cresceu oprimido pela sua mãe e pelos demais membros da sociedade. A justiça foi criada para combater a anarquia, onde todos faziam o que bem entendessem e, visto que na obra o homem é Hobbesiano, ou seja, o homem nasce mau e por causa disso cria uma sociedade má também.  Kovacs sofreu dessa maldade da sociedade, a viu como ela é (na visão de Hobbes, “o homem é o lobo do homem”) e por isso decidiu criar o Rorschach, a justiça, entretanto sem leis a justiça julga como bem entender, por isso ele fez sua máscara, criou as leis que ele seguiria.

A lei se adapta a sociedade, ela deve manter a ordem, essa é sua função, portanto quando Rorschach se depara com o crime da garotinha ele percebe que a justiça, no caso ele, precisa ser mais rígido, para manter essa ordem. Nesse momento ele abandona seus ideais humanitários e adota uma postura firme, esse é o momento que seu lado “humano” morre, Kovacs desaparece, só Rorschach vive a partir dali.

Durante a cena da prisão que citei, ele fala a sua marcante frase e mostra aí um conflito, ele está no meio de um presídio, onde o crime e a desordem reinam, e ele está lá sozinho. Isso nos dá o seguinte questionamento, em meio a tanta desordem e maldade (sociedade anárquica) a justiça pode contê-los?

Nesse momento ele está sem sua máscara, aí a justiça não tem leis e age como bem entender, ele segue seus ideais de manter a ordem, mas não há algo para ditar suas ações, ele está sem rosto, em meio ao caos ele deve fazer o que for necessário para sobreviver na esperança de manter a ordem e manter assim a sociedade não anárquica, ou seja, a que respeita a ordem, seguem as leis definidas para conviver com ordem, segura. Isso que o leva a matar diversos criminosos durante a fuga da prisão, onde há uma rebelião dos detentos.

O último e principal ponto que é questionado é os limites da justiça e da ordem. Rorschach entra em um dilema no fim, Ozymandias (na minha visão uma paródia do Estado) parou as guerras e uniu a humanidade, entretanto para isso ele cometeu um crime, milhares de inocentes foram mortos, Rorschach decide combater ele, pois um crime foi cometido, a ordem foi quebrada, entretanto essa quebra da ordem foi necessária para um “bem maior” e por tentar seguir suas leis, seus ideais ele acaba sendo morto. Porém mostra que, após ser morto, fica sua mancha na neve com o “formato” de sua máscara, isso mostra que mesmo após leis serem extintas elas ainda acabam gerando efeito no futuro pois tiveram sua influência sobre a sociedade, podemos citar como exemplos as leis de escravidão que ajudaram a gerar o racismo atualmente e a Lei sálica, criada na idade média que gerou o patriarcado que, de certo modo, vive até hoje.

Qual o limite da justiça e da lei, ele buscou trazer a ordem ao denunciar o Ozymandias, entretanto como disse, a quebra da ordem foi necessária, até onde vai o limite da lei e da justiça? Compensa denunciar essa desordem (mortes) mesmo sabendo que ela foi necessária para criar ordem (paz mundial)? Nesse momento a justiça e as leis viraram um empecilho, pois na busca de criar ordem ela geraria desordem, criou-se esse paradoxo, entretanto a ação de Ozymandias foi o conhecido “mau necessário”, fez um crime (mau) para que no fim um obstáculo fosse superado e a humanidade voltasse a “crescer” (paz mundial), por isso Rorschach foi exterminado.

 

Ozymandias: Desordem (mortes) –> Ordem (Paz mundial)

Rorschach: Ordem (denunciar o crime) –> Desordem (Volta dos conflitos)

 

(Hobbes, Thomas. Leviatã. São Paulo: Martin Claret, 2017)

(Moore, Alan; Gibbons Dave. Watchmen: Edição Definitiva. São Paulo: Panini, 2017)

Nada dura para sempre

Nas ruínas de um castelo um homem contemplava o resto do que um dia foi uma casa de reis, reis esses que a muito estavam mortos, que a única lembrança que deixaram foi seus nomes e suas ruínas, todo o resto foi consumido pelo tempo e esquecido a nós,

O vento soprava, o mesmo vento que sopra desde o início dos tempos, assim como as forças da natureza, a mesma chuva, a mesma terra, a mesma fúria e a mesma paz.

O homem contemplava, bem na sua frente, a futilidade do homem em comparação com o mundo natural e suas forças pouco conhecidas. Percebeu que, assim como os antigos reis, ele não passará de mais uma poeira no tempo que em breve o vento levará, em silêncio, para ser esquecido para sempre.

O velho e a jovem

Há alguns meses uma amiga minha estava triste devido a um amigo dela que havia falecido, ela é uma pessoa especial para mim, então decidi montar um conto para tentar alegra-la, gostaria de compartilhar esse conto aqui.

 

Caminhando pela cidade um senhor de idade viu uma jovem tristonha sentada em um banco na praça em que ele caminhava.
O velho se aproximou da jovem.
– Por que desse olhar melancólico?
A jovem, de cabeça baixa, respondeu:
– A tristeza assola meu coração, você senhor, que és tão vivido, sabe qual o sentido da vida?
O velho sentou-se no banco ao lado da jovem
– O sentido da vida é algo inexplicável, para cada pessoa há um motivo diferente. Isso é algo que devemos procurar nós mesmos.
– Senhor, não sei como procurar? E além do mais, como isso curará meu coração?
O velho homem olhou para o céu, contemplando através das folhas do Ipê Rosa o céu azul.
– Você sabe no fundo como começar a procura, você possui todo o material para isso, sentimentos, gostos, sonhos e principalmente pessoas que sempre estarão a seu lado. E sobre a cura da
dor, bem isso é algo que irá cicatrizar com o tempo, já vivi muito, vi parentes e amigos morrerem, a morte de minha esposa foi a dor mais terrível que passei, porém, com o tempo, percebi que enquanto essas pessoas estiverem em minha memória e em meu coração nunca estarão realmente mortas, as lembranças de todos eles são o remédio que cicatriza o coração.
– Minha mente está confusa, não consigo pensar, não consigo sentir nada além de tristeza.
O senhor se ajeitou no banco
– Jovenzinha, o que atrapalha seus pensamentos não é só a dor, as boas lembranças vem e vão em meio a essa tristeza, não deixe isso na cabeça, jogue as memórias para o coração e a tristeza se dissipará.
– Como faço isso?
– É mais simples do que parece, junte todas as boas memórias e sorria, mesmo que no começo seja forçado, logo ele virará verdadeiro e aí você saberá que você as guardou no coração.
A jovem levantou a cabeça
– Então assim as levarei para o resto da vida?
– Elas serão imortais, portanto que sempre lembre delas com alegria, pois isso que aqueles que se foram desejam, que você seja feliz, que siga sua vida e seus sonhos, eles serão eternamente gratos por todo o carinho que dedicou a eles, e as boas memórias que eles deixam são uma maneira de recompensar tudo isso, é uma maneira de você achar alegria nos momentos difíceis, elas te mostrarão que nunca estará sozinha, sempre terá alguém junto a você, te darão lições de vida e te ajudarão a moldar a pessoa que você vai ser.
– Então o que devo fazer?
– Viva, você não deve esquecer dos que amou, porém não deixe a tristeza que veio junto a morte destes atrapalhá-la, o importante é o agora e o amanhã, o passado é um local que você tira lições da vida e lembra de bons momentos, como um baú. Agora minha jovem, vá pra casa, fique junto de sua família, saia com os amigos e sempre lembre-se do que te ensinei aqui.
– Sempre lembrarei, levarei uma vida feliz e darei orgulho a todos, vivos ou mortos, pois eles que me tornaram o que sou. O mínimo que posso fazer por eles é honrar sua memória. Agora senhor, se me der licença voltarei para casa.
A garota levantou-se e foi para sua casa, levando com si tudo o que o senhor a ensinou.
O Velho olhou para o céu e pensou consigo mesmo “que um dia minha jovem, passe isso adiante, como meu pai me passou”

Por que devo ler?

Como diz Tyrion Lannister em As crônicas de gelo e fogo:

“O homem que lê vive várias vidas antes de morrer. O homem que não lê vive apenas uma”

A leitura é uma forma de viver novas experiências, fazer você conhecer mundos totalmente novos, ela eleva sua criatividade, seu raciocínio e abre portas para ver o mundo de uma maneira totalmente diferente.

Também pode ser vista como uma forma de terapia, a leitura atinge a alma, relaxa e ao mesmo tempo te torna uma pessoa melhor.

Aqueles que detêm o conhecimento alcançam muito mais do que aqueles que não o buscam, conseguem muito mais na vida.

O livro melhora muitas coisas, escrita, produção de textos, abre portas para todas as áreas de conhecimento além, claro, de te tornar uma pessoa melhor, ela te mostra novos caminhos, te dá assunto para conversas e ajudam na conquista de seus sonhos.

“Sentimos muito bem onde a nossa sabedoria começa onde a do autor termina, e gostaríamos que ele nos desse respostas, quando tudo que ele pode fazer é dar-nos desejos” – Marcel Proust

 

(Martin, George R. R. A filosofia de Tyrion Lannister. São Paulo: Leya, 2013 )

(Proust, Marcel. Sobre a leitura. Campinas: Pontes, 2003)